quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Obituários

A aposentada, Dona Maria de Jesus, 83 anos, em sua vidinha pacata, nunca pretendeu virar notícia. Natural de Laguna viu seus filhos e netos crescerem em Imaruí. Lá se aposentou como lavadeira vindo morar em Criciúma com um dos filhos e nora. O caso de Dona Maria apareceu na capa dos jornais da semana, além de receber matéria de meia página. A razão da súbita celebridade é simples: o benefício da aposentada foi suspenso porque a Previdência a considera morta. Com atestado de óbito e tudo. Para voltar a receber o “aposento” Dona Maria terá que provar que está viva. Sabe-se lá quantos atestados e certidões serão necessários para que ela volte a receber seus minguados dois salários- mínimos equivalentes à pensão dela e a do marido já falecido.
No entanto, com todos os apertos e aflições, há algo que D. Maria terá que levar em consideração: ela foi presenteada, em função do fato intrigante, a um curioso epitáfio em vida. Quem leu a reportagem sabe que a origem de sua família é de pescadores, que é viúva, que tem oito filhos, que foi uma ótima lavadeira, que mora no bairro Cristo Redentor. Dona Maria de Jesus não é mais somente um número da Previdência. A partir de “sua morte” passou a ter uma biografia que, se não foi excepcional em fatos e acontecimentos, sobra em dignidade. Quando tudo voltar ao normal ela poderá sentar-se com os familiares e todos rirão da inusitada história. Os filhos terão o que contar no trabalho, os netos poderão escrever redações na escola sobre o caso da avó.
Infelizmente nossos periódicos locais ainda não têm a seção do obituário.O Pinduka é o único que homenageia os mortos com a foto e data de falecimento. Todos os jornais deveriam ter seus necrológios. Qualquer pessoa que morresse - pobre, rica, feia, bonita, tímida, ansiosa, perfumada ou não - seria agraciada com uma breve biografia e, pelo menos na morte, escaparia do anonimato.
Tenho uma cisma por ler necrológios. Deixo-os por último, depois de ler sobre os crimes hediondos das páginas policiais e os de colarinho branco das páginas de política e economia. Então vou saber das pessoas “boas”. A seção dos obituários, como se sabe, é um dos poucos espaços do jornal em que todo mundo é bom. Como, em geral, é a família quem passa as informações sobre o falecido, essas sempre lhe são favoráveis. Prevalecem as qualidades e são omitidos os defeitos. A montagem de uma biografia sempre tem algo de ficcional. No caso de Dona Maria de Jesus, embora a morte falsa, seu “obituário” é todo verdadeiro. A morte, como diz o Luiz Fernando Veríssimo, prescreve qualquer culpa e inocenta a todos. Mas sobre esse aspecto, nem sempre a justiça prevalece. Figurarão na crônica da cidade, daqui a cinqüenta anos, aqueles que obtiverem bons biógrafos. Cidadãos comuns, que padecem até por terem nomes comuns, estarão, infelizmente, excluídos da história oficial.

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