A rua Hercílio Luz está mais triste. A esquina com a Santo Antônio não será mais o picadeiro de um circo sem lona. O malabarista que, dia sim, dia sim, chuva ou sol, frio ou calor, ali se apresentava, desistiu das acrobacias da vida.
Todos os que transitam pela Hercílio Luz têm muita pressa. É o trajeto de se pegar no batente, alcançar a fila do banco, buscar o filho no colégio. Aquele semáforo... tão demorado. O malabarista não tinha pressa. Apenas dava conta de sua arte. Ninguém sabia ao certo descrever seu rosto sob aquela pesada maquiagem.Tampouco conhecia seu nome, sua idade, sua família, sua história. Era estrangeiro, argentino talvez. Havia os que o olhavam com indiferença, outros o contemplavam com pena. Muitos, a maioria, torcia para que o sinal abrisse logo, assim não teriam o incômodo de procurar moedas na carteira.
Os palhaços existem para alegrar as pessoas, distraí-las. Ele tentava. Mas em dias úteis da semana todas as urgências desabam sobre nossas cabeças como tijolos do último andar do edifício das obrigações em que se transformou nossa vida. Quem tinha humor para assistir, pacientemente, o vôo dos malabares? Abre sinaleira, abre... Ele, recebendo ou não sua moedinha, sorria, sorria sempre, embora pressentindo a realidade cair-lhe de pau por cima. Havia algo em sua face que a tinta branca não escondia. Algo de trágico, de desesperança, de desistência de si. Nós, os transeuntes ocupados, não notávamos. Percebam que estou usando a primeira pessoa do plural para diluir culpas.
Engraçada a vida! Malabaristas são pessoas que, para divertir o público e ganhar o pão, exibem uma destreza incomum equilibrando objetos, lançando-os para o alto e recolhendo-os sucessivamente. Desavisadamente, achamos que essa habilidade para controlar situações difíceis e adversas é uma característica inerente a todos eles. Confundimos o artista com o ser humano. No entanto, equilíbrios emocionais são sempre mais instáveis e propensos ao chão do que bolas e arcos de fogo.
Todos os que transitam pela Hercílio Luz têm muita pressa. É o trajeto de se pegar no batente, alcançar a fila do banco, buscar o filho no colégio. Aquele semáforo... tão demorado. O malabarista não tinha pressa. Apenas dava conta de sua arte. Ninguém sabia ao certo descrever seu rosto sob aquela pesada maquiagem.Tampouco conhecia seu nome, sua idade, sua família, sua história. Era estrangeiro, argentino talvez. Havia os que o olhavam com indiferença, outros o contemplavam com pena. Muitos, a maioria, torcia para que o sinal abrisse logo, assim não teriam o incômodo de procurar moedas na carteira.
Os palhaços existem para alegrar as pessoas, distraí-las. Ele tentava. Mas em dias úteis da semana todas as urgências desabam sobre nossas cabeças como tijolos do último andar do edifício das obrigações em que se transformou nossa vida. Quem tinha humor para assistir, pacientemente, o vôo dos malabares? Abre sinaleira, abre... Ele, recebendo ou não sua moedinha, sorria, sorria sempre, embora pressentindo a realidade cair-lhe de pau por cima. Havia algo em sua face que a tinta branca não escondia. Algo de trágico, de desesperança, de desistência de si. Nós, os transeuntes ocupados, não notávamos. Percebam que estou usando a primeira pessoa do plural para diluir culpas.
Engraçada a vida! Malabaristas são pessoas que, para divertir o público e ganhar o pão, exibem uma destreza incomum equilibrando objetos, lançando-os para o alto e recolhendo-os sucessivamente. Desavisadamente, achamos que essa habilidade para controlar situações difíceis e adversas é uma característica inerente a todos eles. Confundimos o artista com o ser humano. No entanto, equilíbrios emocionais são sempre mais instáveis e propensos ao chão do que bolas e arcos de fogo.
No ato suicida sempre há uma acusação, mas não deixa de ser um gesto de comunicação. A atitude extrema do artista talvez tenha querido dizer a todos nós que, mais do que moedas, ele precisava de nosso olhar atento, nosso sorriso, nosso aplauso sincero.
Nada mais restando, torçamos para que aquela lei cristã que prega que só Deus pode nos tirar a vida tenha passado por uma emenda. Se assim for, é provável que o malabarista já tenha alcançado o céu e lá encontrado platéia mais calorosa.

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