Não sei você, mas eu sou do tempo em que as doenças, em sua maioria, ainda não haviam sido inventadas. Sim, falava-se vagamente de derrame, infarto, câncer, mas elas não vinham acompanhadas dos terrores dos dias atuais, como UTI ou tratamento por quimioterapia. Quer saber do que mais? Tendo a avó que eu tinha, que aliás era parteira, nem se precisava de médico. Ela não agia sozinha, porém. Possuía, como auxiliar, um velho armário de imbuia, majestosamente acomodado na sala de jantar, que guardava todo o arsenal terapêutico que a época exigia. Com o passar dos anos, ele passou a chamar-se Dr. Ross, numa alusão às “Pílulas de Vida do Dr. Ross”, uma das tantas drogas ali acondicionadas. Pois minha avó e o Dr. Ross tinham curas para tudo, de dor-de-dente a traumas da alma. A purga, por exemplo: acreditava-se que um bom purgante tinha o poder de “limpar” o organismo, livrando-o de suas impurezas. Vovó era adepta do tratamento. A cada seis meses lá estava ela com seu Óleo de Rícino. Não deixavam de ser uma tortura aquelas colheradas enfiadas goela abaixo, embora houvesse uma grande compensação: dia de Óleo de Rícino não se precisava ir à escola, pelos motivos óbvios. Ah! Para não se ir à escola tomava-se até injeção. Mas como eu ia dizendo, muitas vezes vovó combinava o tratamento “purificador” com o da verminose. Assim, além dos laxativos, ainda nos dava uma boa dose de Elixir de Cacau .
Depois de purificados, era a vez de um bom anti-anêmico, que só podia ser Biotônico Foutoura, ou o Óleo de Fígado de Bacalhau, ou ainda Emulsão de Scott. Criança em fase de crescimento não podia deixar de tomar fortificante, acreditava ela. Perceba que aquela era uma medicina preventiva.
Havia um segmento de medicamentos que, até hoje não sei bem porquê, era destinado somente aos anciões da família, ou seja, vovô, a bisa e tia Maria. Eram as tais Pílulas De Vida do Dr. Ross, a Olina e o Emplastro Sabiá.
Quando os invernos chegavam, Dr. Ross já estava devidamente equipado para as doenças do frio. Encontrava-se lá a lata de Pastilhas Valda em casos de dor de garganta, o Bálsamo Alemão para qualquer tipo de bronquite e Vick Vaporub para descongestionar o peito. Em estados sérios de amigdalite não escapávamos do pincel de Colubiazol e, para tosse, claro, tomava-se com muito gosto o Melagrião.
A pomada Minâncora era uma categoria especial. Naquela época em que “Avon Chama” ainda nem chamava, fazia igualmente o papel de cicatrizante, hidratante e cosmético. Mais de uma vez surpreendi minhas primas mais velhas, em véspera de visita de namorado, a emplastarem-se com a famosa mistura branca.
Para crianças arteiras, que viviam esfoladas, havia um estoque de primeiros socorros: Água Oxigenada, Mercúrio Cromo, Tintura de Iodo, esparadrapo e, naturalmente Band-Aid que, por ser muito caro, era usado com certa parcimônia mas que tínhamos muito orgulho em ostentar: -Bota um Band-Aid, vó? -Não. Esse machucado não pode ser abafado.
Lá pelos doze, treze anos, quando se ficava mocinha, era a vez do Atroveran acudir-nos nas cólicas, mas aquele era um ato que reclamava sigilo e cumplicidade das partes envolvidas, ou seja, nós, vovó e Dr. Ross. Ai se algum guri da casa descobrisse! Era motivo de muita gozação.
E o que mais havia? Ah sim. Água de Melissa para os achaques de tia Anita; Aspirina e Melhoral, provavelmente para as mesmas dores de cabeça dos dias de hoje; Elixir Paregórico, Pó Pelotense, Rum Creosotado, Phimatosan ......pensando bem, tanto minha avó como o Dr. Ross, fossem vivos hoje, sem dúvida deveriam ser credenciados pelo SUS, ou até pela UNIMED!

Nenhum comentário:
Postar um comentário