segunda-feira, 3 de novembro de 2008

DO OUTRO LADO

Bolo, brigadeiro, balões. Palhaço Pira, presentes, parabéns a você.

Trancado ao lado de fora da vida, o menino.Tem 10 anos, um pai alcoólatra, uma mãe morta.

Ouve a algazarra. Seus olhinhos de cão pedinte procuram. Nenhuma fresta pra espiar, apenas sons e o muro. Havia um muro. Muro alto, muito alto. Alto e eletrificado. O outro lado do muro inundado de refrigerantes e brincadeiras.

Nisso, um dos balões da festa se solta, tonto com tanta balbúrdia. Deixa-se levar, ora pra dentro, ora pra fora do condomínio de luxo. O menino acompanha-lhe a trajetória. Tenta reter nas mãos um pouco da magia do outro lado.
Corre, pula, estica o braço, ah...quase. Arrisca-se novamente, salta, escala, chega ao alto do muro... enreda-se nos fios energizados.

Cerca eletrificada não foi inventada para estourar balões. Seu propósito - não sabe menino? - é afugentar bicho e gente indesejados. Cai o corpo rente ao muro, mas a alminha ágil, faminta de alegria e riso, alcança finalmente o balão. Seguem juntos em destinos de nuvem e céu.