quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Pinóquio

Não, não vou falar da peça em Criciúma, nem do incêndio, nem da falta de sorte de nosso querido teatro Elias Angeloni, aquela maldição que dizem que ele tem por estar tão perto do cemitério... hum, deixa pra lá. Vou falar do menininho de madeira construído por Gepetto que, quando mentia, crescia o nariz e que, só depois de muitas aventuras errantes e da remissão torna-se um menino de verdade. Diz a fada lá pelas tantas: “Sempre que você mentir seu nariz o denunciará. A mentira é algo errado e não deve fazer parte de quem possui um bom coração”.

A fada repete na história o que todas as mães tentam ensinar aos filhos. Aliás, entre os valores da humanidade, a sinceridade é um dos mais relevantes. Pergunte ao eleitor o que ele espera do candidato e ele dirá: “transparência”. Pergunte a uma adolescente o que ela espera do príncipe encantado e ela responderá: “que ele seja sincero”.

Mas embora os ensinamentos das fadas e das mães, a exemplo do Pinóquio, somos todos mentirosos. Em um cálculo feito por um pesquisador americano, cerca de 25% do que falamos por dia é falso. Exageros à parte, a verdade é que “a verdade somente a verdade, nada mais que a verdade” é uma coisa muito difícil de dizer e agüentar. Imaginemos: Você encontra uma amiga que recém passou por uma cirurgia plástica. Ao invés de se mostrar impassível diante do desastre você diz: “Deus do céu, o que fizeram com você?” Seu pai lhe presenteia com o último best seller do Paulo Coelho. Você agradece, mas salienta: “Não sei como esse escritor, escrevendo tão mal, consegue vender tanto”. Sua irmã lhe pergunta como ficou com a nova calça jeans que comprou e você responde: “Essa calça te deixa gorda”. Pronto! Você foi absolutamente sincera. Sua amiga está mesmo com a cara da Danuza Leão, o Paulo Coelho não é unanimidade de crítica, apesar de vender bem, a calça não favoreceu sua irmã. Porém, o que você conseguiu gerar com tanta honestidade? Mágoa e ressentimento.

Se a mentira não existisse, nossa vida seria insuportável. A verdade pode ser intolerável, mesmo quando se pede uma resposta sincera. Nós, mulheres, temos a mania masoquista de perguntar aos namorados ou maridos se eles nos acham gordas, feias, ou chatas, mas ai deles se responderem afirmativamente. É discussão na certa. “Mentiras sinceras nos interessam”, não é Cazuza?
Claro, há sempre um jeito de dizer a verdade sem ferir. Difícil? Muito. Mas é preferível mentirinhas leves do que verdades grosseiras. Eufemismos foram criados para atenuar realidades desagradáveis. Assim, se o seu chefe lhe pedir uma opinião sobre o discurso que ele escreveu para a festa de confraternização da empresa, não vá logo apontando os erros de português. Diga simplesmente: “Está muito bom, mas podemos deixá-lo ainda melhor”. Azar se seu nariz crescer. Pelo menos você não perde o emprego. “Coloque sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia” como dizia o escritor português Eça de Queirós.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O Malabarista da Hercílio Luz

A rua Hercílio Luz está mais triste. A esquina com a Santo Antônio não será mais o picadeiro de um circo sem lona. O malabarista que, dia sim, dia sim, chuva ou sol, frio ou calor, ali se apresentava, desistiu das acrobacias da vida.

Todos os que transitam pela Hercílio Luz têm muita pressa. É o trajeto de se pegar no batente, alcançar a fila do banco, buscar o filho no colégio. Aquele semáforo... tão demorado. O malabarista não tinha pressa. Apenas dava conta de sua arte. Ninguém sabia ao certo descrever seu rosto sob aquela pesada maquiagem.Tampouco conhecia seu nome, sua idade, sua família, sua história. Era estrangeiro, argentino talvez. Havia os que o olhavam com indiferença, outros o contemplavam com pena. Muitos, a maioria, torcia para que o sinal abrisse logo, assim não teriam o incômodo de procurar moedas na carteira.

Os palhaços existem para alegrar as pessoas, distraí-las. Ele tentava. Mas em dias úteis da semana todas as urgências desabam sobre nossas cabeças como tijolos do último andar do edifício das obrigações em que se transformou nossa vida. Quem tinha humor para assistir, pacientemente, o vôo dos malabares? Abre sinaleira, abre... Ele, recebendo ou não sua moedinha, sorria, sorria sempre, embora pressentindo a realidade cair-lhe de pau por cima. Havia algo em sua face que a tinta branca não escondia. Algo de trágico, de desesperança, de desistência de si. Nós, os transeuntes ocupados, não notávamos. Percebam que estou usando a primeira pessoa do plural para diluir culpas.

Engraçada a vida! Malabaristas são pessoas que, para divertir o público e ganhar o pão, exibem uma destreza incomum equilibrando objetos, lançando-os para o alto e recolhendo-os sucessivamente. Desavisadamente, achamos que essa habilidade para controlar situações difíceis e adversas é uma característica inerente a todos eles. Confundimos o artista com o ser humano. No entanto, equilíbrios emocionais são sempre mais instáveis e propensos ao chão do que bolas e arcos de fogo.

No ato suicida sempre há uma acusação, mas não deixa de ser um gesto de comunicação. A atitude extrema do artista talvez tenha querido dizer a todos nós que, mais do que moedas, ele precisava de nosso olhar atento, nosso sorriso, nosso aplauso sincero.

Nada mais restando, torçamos para que aquela lei cristã que prega que só Deus pode nos tirar a vida tenha passado por uma emenda. Se assim for, é provável que o malabarista já tenha alcançado o céu e lá encontrado platéia mais calorosa.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A Farmácia da Vovó

Não sei você, mas eu sou do tempo em que as doenças, em sua maioria, ainda não haviam sido inventadas. Sim, falava-se vagamente de derrame, infarto, câncer, mas elas não vinham acompanhadas dos terrores dos dias atuais, como UTI ou tratamento por quimioterapia. Quer saber do que mais? Tendo a avó que eu tinha, que aliás era parteira, nem se precisava de médico. Ela não agia sozinha, porém. Possuía, como auxiliar, um velho armário de imbuia, majestosamente acomodado na sala de jantar, que guardava todo o arsenal terapêutico que a época exigia. Com o passar dos anos, ele passou a chamar-se Dr. Ross, numa alusão às “Pílulas de Vida do Dr. Ross”, uma das tantas drogas ali acondicionadas. Pois minha avó e o Dr. Ross tinham curas para tudo, de dor-de-dente a traumas da alma. A purga, por exemplo: acreditava-se que um bom purgante tinha o poder de “limpar” o organismo, livrando-o de suas impurezas. Vovó era adepta do tratamento. A cada seis meses lá estava ela com seu Óleo de Rícino. Não deixavam de ser uma tortura aquelas colheradas enfiadas goela abaixo, embora houvesse uma grande compensação: dia de Óleo de Rícino não se precisava ir à escola, pelos motivos óbvios. Ah! Para não se ir à escola tomava-se até injeção. Mas como eu ia dizendo, muitas vezes vovó combinava o tratamento “purificador” com o da verminose. Assim, além dos laxativos, ainda nos dava uma boa dose de Elixir de Cacau .

Depois de purificados, era a vez de um bom anti-anêmico, que só podia ser Biotônico Foutoura, ou o Óleo de Fígado de Bacalhau, ou ainda Emulsão de Scott. Criança em fase de crescimento não podia deixar de tomar fortificante, acreditava ela. Perceba que aquela era uma medicina preventiva.

Havia um segmento de medicamentos que, até hoje não sei bem porquê, era destinado somente aos anciões da família, ou seja, vovô, a bisa e tia Maria. Eram as tais Pílulas De Vida do Dr. Ross, a Olina e o Emplastro Sabiá.

Quando os invernos chegavam, Dr. Ross já estava devidamente equipado para as doenças do frio. Encontrava-se lá a lata de Pastilhas Valda em casos de dor de garganta, o Bálsamo Alemão para qualquer tipo de bronquite e Vick Vaporub para descongestionar o peito. Em estados sérios de amigdalite não escapávamos do pincel de Colubiazol e, para tosse, claro, tomava-se com muito gosto o Melagrião.

A pomada Minâncora era uma categoria especial. Naquela época em que “Avon Chama” ainda nem chamava, fazia igualmente o papel de cicatrizante, hidratante e cosmético. Mais de uma vez surpreendi minhas primas mais velhas, em véspera de visita de namorado, a emplastarem-se com a famosa mistura branca.

Para crianças arteiras, que viviam esfoladas, havia um estoque de primeiros socorros: Água Oxigenada, Mercúrio Cromo, Tintura de Iodo, esparadrapo e, naturalmente Band-Aid que, por ser muito caro, era usado com certa parcimônia mas que tínhamos muito orgulho em ostentar: -Bota um Band-Aid, vó? -Não. Esse machucado não pode ser abafado.

Lá pelos doze, treze anos, quando se ficava mocinha, era a vez do Atroveran acudir-nos nas cólicas, mas aquele era um ato que reclamava sigilo e cumplicidade das partes envolvidas, ou seja, nós, vovó e Dr. Ross. Ai se algum guri da casa descobrisse! Era motivo de muita gozação.
E o que mais havia? Ah sim. Água de Melissa para os achaques de tia Anita; Aspirina e Melhoral, provavelmente para as mesmas dores de cabeça dos dias de hoje; Elixir Paregórico, Pó Pelotense, Rum Creosotado, Phimatosan ......pensando bem, tanto minha avó como o Dr. Ross, fossem vivos hoje, sem dúvida deveriam ser credenciados pelo SUS, ou até pela UNIMED!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Obituários

A aposentada, Dona Maria de Jesus, 83 anos, em sua vidinha pacata, nunca pretendeu virar notícia. Natural de Laguna viu seus filhos e netos crescerem em Imaruí. Lá se aposentou como lavadeira vindo morar em Criciúma com um dos filhos e nora. O caso de Dona Maria apareceu na capa dos jornais da semana, além de receber matéria de meia página. A razão da súbita celebridade é simples: o benefício da aposentada foi suspenso porque a Previdência a considera morta. Com atestado de óbito e tudo. Para voltar a receber o “aposento” Dona Maria terá que provar que está viva. Sabe-se lá quantos atestados e certidões serão necessários para que ela volte a receber seus minguados dois salários- mínimos equivalentes à pensão dela e a do marido já falecido.
No entanto, com todos os apertos e aflições, há algo que D. Maria terá que levar em consideração: ela foi presenteada, em função do fato intrigante, a um curioso epitáfio em vida. Quem leu a reportagem sabe que a origem de sua família é de pescadores, que é viúva, que tem oito filhos, que foi uma ótima lavadeira, que mora no bairro Cristo Redentor. Dona Maria de Jesus não é mais somente um número da Previdência. A partir de “sua morte” passou a ter uma biografia que, se não foi excepcional em fatos e acontecimentos, sobra em dignidade. Quando tudo voltar ao normal ela poderá sentar-se com os familiares e todos rirão da inusitada história. Os filhos terão o que contar no trabalho, os netos poderão escrever redações na escola sobre o caso da avó.
Infelizmente nossos periódicos locais ainda não têm a seção do obituário.O Pinduka é o único que homenageia os mortos com a foto e data de falecimento. Todos os jornais deveriam ter seus necrológios. Qualquer pessoa que morresse - pobre, rica, feia, bonita, tímida, ansiosa, perfumada ou não - seria agraciada com uma breve biografia e, pelo menos na morte, escaparia do anonimato.
Tenho uma cisma por ler necrológios. Deixo-os por último, depois de ler sobre os crimes hediondos das páginas policiais e os de colarinho branco das páginas de política e economia. Então vou saber das pessoas “boas”. A seção dos obituários, como se sabe, é um dos poucos espaços do jornal em que todo mundo é bom. Como, em geral, é a família quem passa as informações sobre o falecido, essas sempre lhe são favoráveis. Prevalecem as qualidades e são omitidos os defeitos. A montagem de uma biografia sempre tem algo de ficcional. No caso de Dona Maria de Jesus, embora a morte falsa, seu “obituário” é todo verdadeiro. A morte, como diz o Luiz Fernando Veríssimo, prescreve qualquer culpa e inocenta a todos. Mas sobre esse aspecto, nem sempre a justiça prevalece. Figurarão na crônica da cidade, daqui a cinqüenta anos, aqueles que obtiverem bons biógrafos. Cidadãos comuns, que padecem até por terem nomes comuns, estarão, infelizmente, excluídos da história oficial.